Diversificar não significa simplesmente ter muitos investimentos
Uma carteira com 30 investimentos pode ser menos diversificada do que uma carteira com 10.
Equipe Elum
Elum

Ter muitos investimentos pode criar uma falsa sensação de diversificação
É relativamente comum encontrar investidores com carteiras extensas.
Diversos fundos.
Vários CDBs.
Títulos de crédito privado.
Ações.
Previdência.
Investimentos internacionais.
À primeira vista, uma carteira assim pode parecer bastante diversificada.
Mas quantidade de investimentos e diversificação são conceitos diferentes.
Imagine um investidor que possui dez fundos de investimento diferentes.
Apesar dos nomes, gestores e estratégias distintas, vários deles podem estar expostos aos mesmos fatores de risco.
Se essas exposições forem semelhantes, adicionar novos fundos à carteira pode aumentar o número de produtos sem necessariamente aumentar a diversificação.
O mesmo raciocínio vale para outras classes de ativos.
Diversificar não é simplesmente adicionar investimentos.
É combinar exposições que desempenham funções diferentes dentro da estratégia patrimonial.
O que significa diversificar de verdade?
Uma carteira pode estar exposta a diferentes tipos de risco.
Entre eles:
- Risco de crédito
- Risco de mercado
- Risco de juros
- Risco de inflação
- Risco de liquidez
- Risco cambial
- Risco geográfico
- Risco de concentração
Uma boa diversificação busca evitar que uma única variável tenha impacto desproporcional sobre todo o patrimônio.
Por exemplo, um investidor pode possuir diversos títulos de renda fixa emitidos por empresas diferentes.
Existe alguma diversificação entre emissores.
Mas, se todos forem títulos de crédito privado de longo prazo, a carteira continua concentrada em determinados riscos.
Diversificação, portanto, precisa ser analisada em diferentes dimensões.
Diversificação entre instituições não significa necessariamente diversificação de risco
Outro erro comum é acreditar que distribuir investimentos entre diferentes instituições financeiras automaticamente cria uma carteira diversificada.
Ter recursos em três bancos ou corretoras pode ser relevante por diferentes razões operacionais e de concentração.
Mas isso não significa necessariamente que os investimentos sejam diferentes.
Um investidor pode possuir um fundo multimercado em uma instituição, um fundo semelhante em outra e uma terceira estratégia com exposições parecidas em uma terceira plataforma.
As instituições são diferentes.
Os riscos podem ser praticamente os mesmos.
Por isso, uma análise patrimonial deveria olhar além de onde os investimentos estão custodiados.
É necessário entender o que existe dentro da carteira.
Dez fundos não significam dez estratégias diferentes
Esse problema aparece com frequência na indústria de fundos.
Um investidor pode distribuir recursos entre diversos gestores acreditando estar reduzindo significativamente seu risco.
Mas diferentes fundos podem possuir posições semelhantes em:
- Juros
- Bolsa brasileira
- Dólar
- Crédito privado
- Mercados internacionais
Em determinados cenários, investimentos que pareciam diferentes podem reagir de maneira semelhante.
Isso não significa que possuir diferentes gestores seja necessariamente inadequado.
Significa apenas que o número de fundos não revela sozinho o grau de diversificação da carteira.
É preciso compreender as exposições existentes por trás deles.
Diversificação também envolve horizontes de tempo
Existe outra dimensão que muitas vezes recebe pouca atenção:
O prazo.
Uma família pode possuir uma carteira bem distribuída entre diferentes classes de ativos e ainda assim enfrentar problemas se grande parte do patrimônio estiver comprometida em investimentos de longo prazo.
Imagine que surja uma necessidade inesperada de liquidez.
Ou uma oportunidade de investimento.
Ou uma mudança relevante na situação familiar.
Se grande parte dos recursos estiver em ativos com baixa liquidez, a diversificação entre classes não resolve completamente o problema.
Por isso, uma estratégia patrimonial também pode considerar diferentes horizontes:
- Liquidez imediata
- Objetivos de médio prazo
- Construção patrimonial de longo prazo
- Sucessão
- Geração de renda
Cada parcela do patrimônio pode exercer uma função diferente.
Diversificação geográfica também importa
Investidores brasileiros naturalmente possuem grande parte de sua vida financeira vinculada ao Brasil.
Renda.
Imóveis.
Empresas.
Previdência.
Investimentos.
Isso cria uma exposição relevante ao mesmo país.
Mesmo uma carteira com dezenas de investimentos brasileiros pode continuar concentrada geograficamente.
Investimentos internacionais podem adicionar exposição a outras economias, moedas, setores e empresas.
Mas, novamente, existe uma diferença entre simplesmente investir no exterior e diversificar.
Comprar vários ativos internacionais concentrados no mesmo mercado ou setor pode apenas deslocar a concentração para outro lugar.
A lógica continua sendo a mesma:
Diversificação deve ser analisada pelas exposições, não pela quantidade de produtos.
Mais produtos também podem trazer mais complexidade
Existe um ponto em que adicionar investimentos deixa de melhorar significativamente uma carteira e começa apenas a torná-la mais difícil de acompanhar.
Mais produtos podem significar:
- Mais relatórios
- Mais vencimentos
- Mais tributação para acompanhar
- Mais gestores
- Mais decisões
- Mais dificuldade para compreender o risco consolidado
Complexidade pode até gerar uma sensação de sofisticação.
Mas uma carteira sofisticada não é necessariamente uma carteira eficiente.
Em muitos casos, uma estrutura mais simples permite compreender melhor quais riscos estão sendo assumidos e qual função cada investimento exerce.
Cada investimento deveria ter uma função
Uma pergunta útil ao analisar uma carteira é:
“Por que este investimento está aqui?”
A resposta não deveria ser apenas:
“Porque estava rendendo bem.”
Um investimento pode existir para proporcionar liquidez.
Outro para proteger contra inflação.
Outro para gerar renda.
Outro para exposição ao crescimento econômico.
Outro para diversificação internacional.
Outro para objetivos de longo prazo.
Quando vários investimentos cumprem exatamente a mesma função, talvez exista uma redundância que mereça ser analisada.
Isso não significa que cada investimento precise ser completamente diferente.
Mas a carteira deveria possuir uma lógica compreensível.
Existe diversificação demais?
Em alguns casos, sim.
A busca por diversificação pode levar investidores a acumular tantos produtos que o resultado passa a se aproximar do próprio mercado, mas com uma estrutura muito mais complexa.
Além disso, posições muito pequenas podem ter impacto praticamente irrelevante sobre o resultado total da carteira.
Ter pequenas parcelas do patrimônio distribuídas entre vários investimentos diferentes pode aumentar a quantidade de linhas no extrato sem alterar significativamente o risco ou o retorno do portfólio.
Por isso, diversificação também envolve equilíbrio.
Pouca diversificação pode gerar concentração excessiva.
Diversificação excessiva pode gerar complexidade sem benefício proporcional.
O papel da visão consolidada
Quanto maior o patrimônio, mais importante tende a ser enxergar os investimentos de forma consolidada.
Um investidor pode analisar separadamente:
- A carteira de um banco
- A carteira de uma corretora
- A previdência
- Os investimentos internacionais
- Outros ativos patrimoniais
Cada uma dessas estruturas pode parecer adequada individualmente.
O problema aparece quando todas são observadas juntas.
É nesse momento que podem surgir concentrações que antes não eram evidentes.
Diversos gestores podem estar comprando os mesmos ativos.
Diferentes instituições podem estar recomendando exposições semelhantes.
E uma família que acreditava possuir uma carteira extremamente diversificada pode descobrir que boa parte do patrimônio depende dos mesmos fatores.
Por isso, a diversificação deveria ser analisada no patrimônio consolidado, e não apenas em cada conta isoladamente.
Conclusão
Diversificação continua sendo um dos princípios mais importantes da construção de uma carteira.
Mas seu significado é frequentemente simplificado.
Ter muitos investimentos não significa necessariamente possuir muitos riscos diferentes.
Da mesma forma, possuir contas em diversas instituições ou investir com vários gestores não garante uma carteira verdadeiramente diversificada.
Uma estratégia bem construída busca compreender como diferentes ativos, riscos, geografias, horizontes e necessidades de liquidez se relacionam.
O objetivo não deveria ser possuir o maior número possível de investimentos.
Deveria ser construir uma carteira em que cada exposição tenha uma função clara dentro da estratégia patrimonial.
Por isso, talvez a pergunta mais útil não seja:
“Quantos investimentos eu tenho?”
Mas:
“Quantos riscos diferentes eu realmente tenho e o que acontece com meu patrimônio quando eles aparecem ao mesmo tempo?”
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