Family Offices e IA: a ambição é grande, mas a infraestrutura ainda não acompanha
Relatório global do J.P. Morgan revela que quase dois terços dos family offices priorizam inteligência artificial, mas a maioria não tem exposição às infraestruturas que sustentam essa tecnologia — e o planejamento sucessório segue negligenciado.
Equipe Smart Move Advisor
Redação

A IA virou prioridade — mas o portfólio não reflete isso
A inteligência artificial migrou rapidamente de tema de nicho para prioridade estratégica nos family offices globais. Quase dois terços deles já declaram a IA como foco central de investimento. No entanto, o mais recente Global Family Office Report do J.P. Morgan expõe uma contradição relevante: o entusiasmo com a tecnologia não se traduz em alocação real.
Mais da metade dos family offices não possui qualquer exposição a growth equity ou venture capital — exatamente as classes de ativos onde residem as empresas de IA em estágio inicial. Ainda mais revelador: quase 80% dos respondentes não têm nenhuma alocação em infraestrutura, apesar de data centers, fornecimento de energia e logística serem os pilares físicos que tornam a IA operacional em escala.
Portfólios conservadores em um cenário de transformação
A cautela vai além da IA. Os family offices continuam concentrados em ativos tradicionais — renda variável pública e investimentos privados dominam os portfólios. Ativos historicamente utilizados como proteção em períodos de incerteza seguem fora de moda: quase três quartos dos escritórios não possuem ouro, e cerca de 90% evitam criptoativos completamente.
Em um contexto de tensão geopolítica, disrupção comercial e risco inflacionário persistente, essas lacunas chamam atenção. A inflação, em particular, está moldando comportamentos: family offices que identificam a inflação como principal risco alocam quase 60% do capital em ativos alternativos — bem acima da média global —, com preferência por hedge funds e imóveis em busca de estabilidade.
Sucessão: o ponto cego mais caro
Se a infraestrutura tecnológica é negligenciada, o planejamento sucessório é ainda mais. O relatório aponta que mais de 80% dos family offices não possuem um plano claro de sucessão para os principais tomadores de decisão. O dado é especialmente preocupante diante de uma projeção que indica que famílias bilionárias devem transferir US$ 5,9 trilhões aos seus herdeiros nos próximos 15 anos — o que tem sido chamado de "a grande transferência de riqueza".
No Brasil, onde a concentração patrimonial é historicamente elevada e a cultura de governança familiar ainda está em desenvolvimento, esse gap é ainda mais significativo. A ausência de estruturas formais de sucessão representa um risco real de diluição e conflito intergeracional.
Custos crescentes e a profissionalização dos escritórios
Operar um family office está ficando mais caro. Para escritórios que gerenciam acima de US$ 1 bilhão, os custos anuais médios já superam US$ 6 milhões. A competição por profissionais qualificados, a crescente complexidade regulatória e as exigências de compliance estão pressionando as estruturas de custo.
Muitos family offices passaram a operar como pequenas instituições financeiras, mesmo quando as decisões finais permanecem centralizadas em uma única família ou gestor. Essa profissionalização é necessária, mas exige investimento em pessoas, processos e tecnologia — não apenas em ativos.
Governança como diferencial competitivo
À medida que as famílias crescem e os negócios passam de geração em geração, o conflito interno torna-se um risco real. Mais de 40% das famílias proprietárias de empresas identificam conflitos como uma preocupação prioritária. Aquelas que formalizam a governança — com regras claras, conselhos de família e acordos de acionistas — demonstram maior resiliência e coesão ao longo do tempo.
O relatório do J.P. Morgan aponta para um momento de transição. Os family offices estão se tornando mais profissionais e mais ambiciosos. Mas ainda existe uma lacuna significativa entre onde o capital está alocado hoje e onde o valor futuro provavelmente estará. Fechar essa lacuna exigirá mais do que entusiasmo com novas tecnologias — demandará decisões de investimento precisas e estruturas de governança mais robustas.